Despedida
Já não faziam carinho há muito tempo. A coisa entre eles tinha se reduzido às cerimônias formais esperadas de um casamento - e olhe lá. As vidas de ambos jogavam contra: trabalhos, crianças, contas, distâncias...
Depois da coisa toda desmanchada, nas despedidas pretensamente finais, houve um abraço meio murcho e, no exato momento em que os corpos começaram a se afastar, ela sentiu vontade de um último carinho. Uma expirada final após desligarem os aparelhos que sustentavam o relacionamento. A mala, na soleira da porta, testemunharia o desencontro.
Ela quis sentir um último roçar de bochechas. Enquanto ele se afastava, para encerrar o abraço - e o casamento de tantos anos -, ela fez um último movimento de pescoço, sutil, tentando encostar as bochechas por um segundo ou dois.
Não funcionou muito bem. Se as bochechas se encontraram, foi algo muito ligeiro; não coube nenhuma eternidade. Ela não insistiu. Talvez a vontade tenha passado tão rápido quanto surgiu; ela se resignou e foi embora, arrastando a mala.
Já no carro, ela demorou um instante antes de sair.
Silêncio.